Brasil: Análise de tendências no setor de pagamentos e comércio eletrônico para 2024

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Pix, as fintechs e a mudança do dinheiro físico para pagamentos digitais no maior mercado da América Latina.

Brazil: 2024 analysis of payments and ecommerce trends

Cesar Boralli

Diretor Gerente Associado – Líder em Fintech e Setor Bancário

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês no The Paypers em 30 de setembro de 2024.

Brasil é o maior mercado de comércio digital da América Latina, com um volume transacional que alcançou US$ 276,9 bilhões em 20231. Para os próximos anos, o crescimento esperado é de 51%, chegando à marca de US$ 500 bilhões em 2026. Esse crescimento é impulsionado pelo aumento da digitalização e pelas inovações no setor de pagamentos do país.

Há décadas ouvimos que o dinheiro físico reina na América Latina, mas em breve essa realidade pode deixar de existir no Brasil. Na última década, o país deixou de ser um país predominantemente desbancarizado e se tornou um dos principais polos mundiais de inovação financeira. De acordo com dados do Banco Central, houve uma redução de 27% nos saques em dinheiro em 2023.

Juntamente com o UPI da Índia, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, o Pix, se destaca mundialmente como um modelo revolucionário de pagamentos em tempo real. O Pix promoveu a digitalização de milhões de transações que antes eram feitas em espécie e lançou as bases para novas soluções que podem ser construídas em cima dele.

Para o setor, a ampliação da pegada digital dos consumidores significa um maior aproveitamento dos dados para oferecer uma variedade mais ampla de produtos e serviços, facilitando a monetização de conjuntos de dados cada vez maiores e mais qualificados.

A revolução dos pagamentos em tempo real no Brasil

Além de já responder por 45% de todos os pagamentos no país e por um terço de todas as compras no comércio eletrônico, o Pix caminha para ultrapassar o volume de transações com cartões de crédito. Lançado no final de 2020 pelo Banco Central, que centraliza a operação do sistema, o Pix foi rápida e amplamente adotado pela população. O sistema é usado por mais de 70% da população adulta e quase 15 milhões de empresas, movimentando 20% de todo o volume transacional do Brasil.

Visão geral do Pix

AnoNúmero de transaçõesVolume (BRL)
20219,4 bilhões5,2 trilhões (US$ 955 bilhões)
202224 bilhões10,9 trilhões (US$ 2 trilhões)
202342 bilhões17,2 trilhões (US$ 3,15 trilhões)
2024*28 bilhões11 trilhões (US$ 2 trilhões)
Fonte: Banco Central do Brasil. *Até junho de 2024

Embora os governos desempenhem um papel crucial na abertura dos sistemas financeiros por meio de regulamentações inovadoras, muitos especialistas dizem que as fintechs estão mais atentas às necessidades e desejos dos cidadãos recém-bancarizados do que as instituições tradicionais maiores. Quase um quarto de todas as plataformas globais de fintech operam na América Latina, e o Brasil concentra a maioria das empresas líderes na região. O exemplo mais notável é o Nubank, um dos maiores neobancos do mundo e a quarta maior instituição financeira do Brasil, com mais de 105 milhões de clientes.

A combinação de um ambiente regulatório favorável e fintechs inovadoras tornou o Brasil uma referência mundial em regulamentação financeira.

Principais fintechs B2C

NomeSegmentoNúmero de usuários
NubankBanco digital105 milhões
Mercado PagoBanco digital (antiga carteira digital do Mercado Livre)50 milhões
PicPayCarteira digital36 milhões
InterBanco digital33 milhões
PagBankBanco digital31.6 milhões
PanBanco digital30 millones
C6 BankBanco digital29.8 milhões
NeonBanco digital23.6 milhões
Fuentes: Informes de resultados de las instituciones y Banco Central de Brasil.

Pagamento além do Pix

Apesar do sucesso dos pagamentos em tempo real no Brasil, o dinheiro ainda é um dos meios de pagamento mais usados em transações presenciais. O Banco Central pretende mudar essa situação gradualmente com a introdução de novas funcionalidades do Pix, tornando seu uso ainda mais fácil e prático.

Principais métodos de pagamento em pontos de venda (PDV) no Brasil

Método de pagamentoPercentual
Cartões de crédito36%
Dinheiro físico22%
Cartões de débito20%
Carteiras digitais18%
Financiamento no ponto de venda3%
Cartões pré-pago1%
Fonte: Global Payments Report 2024 da Worldpay

Principais tendências do comércio eletrônico

Nove em cada dez adultos brasileiros já compram pela internet, um crescimento impressionante quando comparado à taxa de penetração do comércio eletrônico, que atingiu 68% em 2020. As compras internacionais, no entanto, ainda têm muito espaço para crescer, já que representam apenas 7% do mercado. Isso significa que as soluções de pagamento internacionais, sobretudo as voltadas não apenas para indivíduos, mas também para transações entre empresas (B2B), ainda podem contribuir significativamente para o desenvolvimento do comércio digital no país.

Desde 2021, os brasileiros preferem usar dispositivos móveis para fazer compras online, respondendo por mais de 70% dessas transações. Essa tendência está intimamente relacionada à crescente penetração dos smartphones no Brasil. Em julho, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informou que havia mais de 261 milhões de smartphones no país – uma média de mais de um telefone por pessoa.

Os cartões de crédito são o meio de pagamento mais utilizado, seguido de perto pelo Pix. Além disso, os cartões de crédito reinam supremos entre os serviços digitais que exigem pagamentos recorrentes, como software-as-a-service (SaaS – 79% das transações) e streamings de vídeo e áudio (60%).

O relatório Global Payments Report 2024 da Worldpay mostra que a Mastercard é a bandeira de cartão mais usada pelos brasileiros, com uma participação de mercado de 51%, seguida pela Visa (31%) e pela Elo (14%) – essa última sendo uma joint venture do Banco Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, três das maiores instituições financeiras do país.

Métodos de pagamento mais usados no comércio eletrônico no Brasil

Método de pagamentoPercentual
Cartões de crédito nacionais39%
Pix33%
Cartões de crédito internacionais10%
Boleto bancário9%
Carteiras digitais8%
Cartões de débito1%
Buy Now, Pay Later (BNPL)1%
Fonte: Análise da PCMI, 2023

Além de ultrapassar os cartões de crédito, a expectativa para o futuro é que o Pix continue roubando participação de mercado das transferências eletrônicas (TED/DOC), dos boletos bancários e dos cartões de débito. Considerando a agenda evolutiva do Pix, a plataforma também terá a oportunidade de ampliar sua participação em compras recorrentes (feitas com cartão ou boleto usando o Pix Automático), transações com cartões de crédito/débito usando a tecnologia de aproximação (Pix por meio de carteiras digitais) e transações internacionais com cartão (Pix Internacional).

Métodos de pagamento mais usados no comércio eletrônico no Brasil por vertical

Meio de pagamentoJogosVarejoAplicativos de transporteSaaSStreamingViagens
Cartões de crédito43%49%40%79%60%48%
Pix37%32%35%13%30%33%
Carteiras digitais8%11%22%8%7%9%
Fonte: Análise da PCMI, 2023

Os cartões de crédito continuam sendo o método preferido para o pagamento de serviços recorrentes, assim como de viagens – setor em que as compras ainda dependem significativamente do crédito. Esse cenário provavelmente mudará nos próximos anos à medida que o Pix ganhar novas funcionalidades (leia mais abaixo).

Os produtos mais comprados na internet no Brasil

A 50ª edição do estudo Webshoppers da NIQ Ebit mostra que essas foram as três categorias de produtos online mais vendidas no Brasil no primeiro semestre de 2024:

  • Eletrodomésticos (38% de participação no volume bruto de mercadorias;
  • Saúde (19%);
  • Perfumaria e cosméticos (13%).

Alimentos, bebidas e eletrônicos também figuram constantemente entre as categorias mais vendidas no país.

Outra fonte interessante que mostra os produtos mais vendidos no comércio eletrônico do país é a base de dados de notas fiscais eletrônicas da Receita Federal. De acordo com esse conjunto de dados, os smartphones foram o produto mais vendido no comércio eletrônico nacional em 2023 (US$ 2,1 bilhões), seguidos por livros, brochuras e impressos similares (US$ 1,3 bilhão), televisores (US$ 1,09 bilhão), refrigeradores e congeladores (US$ 1,03 bilhão), tablets (US$ 908 milhões) e suplementos alimentares (US$ 764 milhões).

Principais marketplaces e varejistas online do Brasil

Entre os principais marketplaces nacionais e internacionais do Brasil, os que contabilizaram o maior número de usuários ativos (ou seja, os que tiveram um dispositivo com uma ou mais sessões em primeiro plano dentro de um aplicativo durante o mês), segundo dados da SimilarWeb de maio de 2024, foram os seguintes:

  • Mercado Livre (43,2 milhões)
  • Shopee (38,2 milhões)
  • Shein (22,6 milhões)
  • Magazine Luiza, também conhecido como Magalu (15,7 milhões)
  • AliExpress (9,4 milhões)
  • Amazon (8,1 milhões)

As lojas online brasileiras respondem por 93% do total de vendas do comércio eletrônico. Um dos fatores que explicam esse fenômeno é que essas lojas virtuais são extensões de grandes varejistas brasileiros, como o Magalu. Assim, essas empresas contam com uma vasta rede de lojas físicas e, portanto, conseguem gerar um grande reconhecimento de marca e otimizar suas operações logísticas. Dito isso, empresas chinesas como Shopee, Shein e AliExpress também conquistaram espaço significativo no Brasil, cabendo destacar que todas as três oferecem aos clientes uma experiência de pagamento localizada.

Segundo uma análise de dados da PCMI, o mercado nacional de comércio eletrônico deve crescer 39% em 2024, enquanto o mercado cross-border deve registrar aumento de 24%.

Tendências emergentes no setor de pagamentos do Brasil

A maioria dos principais neobancos do Brasil, como Nubank, Mercado Pago, PagBank e C6 Bank, expandiu suas operações atendendo clientes de baixa renda, forçando os bancos tradicionais a seguir o mesmo caminho. As maiores instituições financeiras do país, como Itaú, Bradesco e Santander, assim como os bancos estatais, como Banco do Brasil e Caixa Econômica, precisaram redobrar seus esforços de digitalização.

De acordo com dados da última pesquisa sobre tecnologia bancária da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), sete em cada dez transações bancárias dos brasileiros já são feitas pelo celular. Entre 2019 e 2023, as transações por smartphones registraram aumento de 251% no país. Enquanto o volume total de transações dobrou, as movimentações pelo smartphone cresceram 3,5 vezes.

No que se refere às compras presenciais, o número de transações por aproximação vem crescendo cada vez mais. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), as transações por aproximação representaram 61,1% dos pagamentos com cartão no primeiro semestre de 2024, frente a 48,4% no ano passado. De fato, 78% dos brasileiros usam cartões com tecnologia NFC para fazer esses pagamentos, enquanto 30% usam o celular.

Com as novas funcionalidades que devem ser lançadas, o Pix continuará a reduzir as receitas de intercâmbio dos bancos e competir com o setor de cartões, permitindo o desenvolvimento de um novo conjunto de soluções (mais baratas e simples) que se integram ao sistema.

Além dos cartões de crédito, dados do setor sugerem que o Pix já pode substituir uma parcela significativa das transações com cartões de débito no Brasil. De acordo com a Abecs, o volume financeiro de transações com cartões de débito totalizou R$ 486,2 bilhões (US$ 89,3 bilhões) no primeiro semestre de 2024, representando uma queda de 0,2% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Uma nova funcionalidade que deve ser lançada em fevereiro de 2025 tende a reforçar ainda mais essa tendência: o Pix por aproximação. Com ele, os consumidores poderão registrar suas contas nas carteiras digitais de sua preferência e usar o Pix por aproximação para fazer pagamentos presenciais, da mesma forma que fazem com os cartões. Essa funcionalidade eliminará a única lacuna na experiência do usuário que o Pix ainda tem em relação aos cartões em geral.

Esse contexto também explica por que empresas globais estão cada vez mais se integrando com parceiros capazes de conectá-las ao Pix. São exemplos desses parceiros processadores de pagamentos internacionais como EBANX, dLocal, Nuvei e PagSeguro International.

Além da agenda evolutiva do Pix, o Banco Central também vem pressionando pela ampliação do Open Finance e pela regulamentação de empresas que atuam nos mercados de banking-as-a-service (BaaS), jogos de aposta e criptomoedas. O Open Finance gradualmente quebrou o monopólio histórico dos grandes bancos sobre os dados e o crédito dos consumidores, dando aos concorrentes acesso a mais usuários e permitindo que passassem a oferecer à população serviços melhores e mais baratos. As futuras regras aplicáveis a empresas de BaaS e criptomoedas se destinam a regulamentar mercados que já estão em desenvolvimento, proporcionando mais segurança jurídica para as empresas e também para o consumidor.

O setor de pagamentos do Brasil já avançou muito na eliminação de barreiras que dificultavam a inclusão de mais pessoas financeiramente. A próxima fronteira desse movimento são as transações B2B. Em âmbito nacional, para que a economia brasileira se torne verdadeiramente digitalizada, é essencial combater a informalidade dos pequenos negócios na outra ponta desse ciclo inicial de digitalização. As empresas de pagamento regionais e globais sabem disso e estão investindo pesadamente em novas conexões para pagamentos internacionais, incluindo serviços de depósito e saque. Isso inclui tanto alguns dos players mencionados acima quanto empresas tradicionais como Mastercard e Visa. Veremos esses movimentos acontecerem mais nos próximos anos e, se tudo correr bem, muitos encontrarão a fórmula certa.


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Fuentes

  1. Payments and Commerce Market Intelligence (PCMI) analysis from its 2023 Ecommerce Datapack. ↩︎

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Cesar Boralli
Cesar is a renowned thought leader in the banking and fintech space in Latin America, having worked for some of the region´s most exciting companies including global banks such as Citi, J.P. Morgan, Bank of America and fintechs like Flywire, Rapyd, EBANX and XP Inc. He is a Portuguese native speaker as well as fluent in English and Spanish.
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