Os primeiros usos internacionais do Pix

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    Ideia nascida do improviso acabou inspirando fintechs a ligar os pontos para oferecer o sistema de pagamentos instantâneos do Brasil em seus vizinhos Argentina e Uruguai

    Como os brasileiros pagam com Pix na Argentina e no Uruguai

    Sulivan Rocha

    Sr. Analista – Pagamentos – Comércio Eletrônico – Brasil

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    A ideia nasceu da improvisação, depois que lojistas argentinos passaram a “pegar emprestado” contas de parceiros ou amigos do Brasil para receber pagamentos de turistas brasileiros que queriam usar o Pix – sistema brasileiro de pagamentos em tempo real – para pagar suas compras em Buenos Aires. Em meados de 2023, algumas fintechs que atuam na América do Sul identificaram maneiras de oferecer essa possibilidade por canais oficiais.

    Uma das primeiras plataformas a identificar essa ideia como uma oportunidade de negócios foi a argentina KamiPay. Por meio dessa plataforma, os brasileiros podem fazer pagamentos por Pix via QR Code. O pagamento é debitado em reais da conta do cliente e o lojista argentino recebe o valor em pesos ou “dólares digitais”, cujo preço é semelhante ao do “dólar azul” – a taxa de câmbio do mercado negro, inferior à do “dólar MEP”, que é tradicionalmente usada em compras com cartão de crédito. Esse esquema é vantajoso para todas as partes envolvidas.

    As vantagens de usar o Pix

    Para os brasileiros, o pagamento com Pix é uma alternativa mais barata e conveniente do que ter que andar com um bolo de notas de pesos desvalorizados na carteira ou pagar as taxas associadas a transações com cartão. Assim como acontece com outras operações internacionais, as transações na KamiPay também são convertidas no lado brasileiro, o que significa que os clientes do Brasil pagam um imposto sobre operações internacionais (IOF) de 0,38%, mas deixam de pagar um taxa mais alta, de 5,38%, aplicável a transações com cartões de débito e crédito, sem falar das tarifas bancárias.

    Por sua vez, os estabelecimentos argentinos que recebem em reais ou em “dólares digitais” conseguem proteger melhor seus ganhos da inflação, que alcançou 287,9% nos 12 meses encerrados em março de 2024. Os lojistas também recebem os pagamentos mais rapidamente – em questão de segundos – do que se usassem o serviço de adquirentes de cartão, que levam até dez dias úteis para repassar os valores. Isso só é possível porque a fintech usa a tecnologia blockchain para liquidar pagamentos para comerciantes situados fora do Brasil. Recentemente, a KamiPay informou que mais de 45 mil brasileiros já usaram a sua solução na Argentina1, onde 600 empresas locais têm acesso ao serviço.

    A brasileira PagBrasil é outra fintech que conecta empresas sul-americanas ao Pix. Para isso, a empresa usa um aplicativo que transforma o smartphone do lojista em um terminal POS. Nessa operação, o consumidor brasileiro também paga IOF de 0,38% e o valor de suas compras é convertido instantaneamente para reais. Os estabelecimentos, por sua vez, podem receber pagamentos em dólares americanos ou euros. A PagBrasil não informa, porém, a taxa de câmbio que utiliza para converter o valor da compra em pesos para reais ou dólares. No Uruguai, a empresa fechou uma parceria com a fintech local Plexo. A PagBrasil já afirmou que também tem planos de levar sua solução para os mercados da Argentina, Chile, México e Portugal.

    Outro player que vem trabalhando no desenvolvimento de um sistema internacional para turistas brasileiros é a norte-americana Fiserv. Sua solução está disponível para estabelecimentos comerciais que usam terminais POS e sistemas da Clover, uma das marcas da empresa. A questão, no entanto, é que essas transações estão sujeitas à cobrança de 1,1% de IOF e as conversões são feitas com base na cotação do dólar MEP – uma das várias taxas de câmbio do dólar norte-americano existentes na Argentina, que não é tão favorável aos lojistas. Atualmente disponível na Argentina, a Fiserv estuda maneiras de implementar sua solução nos Estados Unidos, México e Canadá entre o final deste ano e o início de 20252.

    Essas soluções podem efetivamente gerar enormes oportunidades de negócios. Para países que recebem frequentemente turistas brasileiros, permitir que esses viajantes usem no exterior seu meio de pagamento nacional preferido pode ser um divisor de águas. No ano passado, os brasileiros gastaram R$ 24,9 bilhões (cerca de US$ 5 bilhões) nos Estados Unidos, o que equivale a quase 38% de todo o valor gasto pelos brasileiros no exterior. Para a Argentina e o Uruguai, os viajantes do Brasil representam uma importante fonte de renda. Em 2023, a Argentina recebeu quase 1,4 milhão de brasileiros – o segundo maior volume de visitantes depois dos uruguaios. Já o Uruguai foi o destino escolhido por 593.058 turistas brasileiros no ano passado.

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    Pix internacional – ou quase isso

    Embora usem o termo “Pix internacional” para se referir às soluções que oferecem, essas empresas estão longe de ter desenvolvido o que o próprio Banco Central do Brasil planeja para os pagamentos internacionais com Pix. A autoridade monetária ainda está nos estágios iniciais do desenvolvimento de uma solução puramente internacional, isto é, uma estrutura internacional que integre sistemas que permitam transações em tempo real em diferentes moedas e entre diferentes contas em diferentes jurisdições3 – uma tarefa bastante complexa que, para se tornar realidade, depende do estabelecimento de padrões, normas e fontes de liquidez entre diferentes países.

    O Pix Internacional não está entre as prioridades de desenvolvimento do sistema. De fato, o Banco Central passa atualmente por uma crise de recursos humanos4, já que vários servidores exigem reajustes salariais e melhores condições de trabalho. O último Fórum Pix, encontro onde a autarquia compartilha com todos os interessados os últimos desenvolvimentos operacionais e regulatórios do sistema, deveria ter sido realizado em março, mas não foi. As únicas soluções atualmente em desenvolvimento são o Pix Automático, a solução de pagamentos recorrentes do sistema que deve ser lançada em outubro deste ano, e o MED 2.0, solução de segurança para a triangulação de transações fraudulentas.

    No entanto, em dezembro de 2023, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse em uma reunião do G205 que a instituição havia começado a trabalhar com o Banco Central da Itália na definição de um conjunto de regras básicas para pagamentos internacionais. A integração dos bancos centrais por meio do Banco de Compensações Internacionais (BIS) acabaria por criar um sistema global de pagamentos instantâneos. Como referência em soluções de pagamentos em tempo real, o Pix poderia ser usado como base para o desenvolvimento de um sistema desse tipo.

    Próximos passos

    Um número cada vez maior de fintechs vem demonstrando interesse no desenvolvimento de soluções internacionais baseadas no Pix, o sistema brasileiro de pagamentos em tempo real. Para saber mais sobre o Pix, o processo de desenvolvimento dessas soluções e os tipos de oportunidades que elas podem oferecer, entre em contato conosco!


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    Sources

    Sulivan Rocha
    Sulivan Rocha
    sulivan@paymentscmi.com

    Sulivan Rocha is an Analyst specializing in the Brazilian payment landscape, with expertise in payments acceptance, fintechs, digital banking, payment processing, cross-border transactions, real-time payments, and e-commerce acceptance.